Green Savers: Grande Entrevista - António Baldaque da Silva

Esta entrevista foi publicada no artigo “O MOTOR (AINDA) SILENCIOSO DA TRANSIÇÃO SUSTENTÁVEL” de Ana Filipa Rego, na edição de dezembro de 2025 da revista Green Savers, na versão impressa.


1. Como definiria, de forma simples e acessível, o conceito de Finanças Verdes e qual o seu papel na transição para uma economia mais sustentável?

“Em termos gerais, Finanças Verdes são todos os instrumentos e práticas financeiras — como créditos, investimentos acionistas, obrigações ou seguros — que têm como objetivo financiar projetos e atividades que potenciam a transição para uma sociedade mais sustentável. Em termos mais restritos, o conceito de finanças verdes está ligado a questões ambientais e de transição energética, como a redução das emissões de carbono, a adaptação às mudanças climáticas ou a proteção biodiversidade, por exemplo.

O papel das finanças na transição para uma economia mais sustentável é absolutamente essencial: a mudança de paradigma de crescimento que estamos a fazer implica um investimento muito significativo – estima-se que seja por volta dos 5% do PIB mundial – que só pode ser feito com uma participação ativa dos mercados financeiros. Com o enquadramento institucional certo, os mercados financeiros podem potenciar a canalização do capital necessário para incentivar modelos e estratégias de negócio mais responsáveis.”

2. O setor financeiro está preparado para integrar critérios ambientais nas suas decisões de investimento?

“A primeira questão que se põe é perceber porque deverá o setor financeiro fazer essa integração. Esta pergunta é respondida pela nossa realidade: a transição energética é um imperativo económico, político e social – para transformarmos o nosso paradigma de crescimento e com isso termos um desenvolvimento sustentado. Mesmo em tempos mais conturbados, como os que passamos atualmente, esta premissa é inquestionável, está em marcha irreversível e é urgente. Isto é especialmente verdade na Europa, onde é necessário garantir, adicionalmente, independência energética. Por isso, o setor financeiro tem de incorporar esta “nova” realidade na sua estratégia, nomeadamente de investimento. 

E de facto o setor financeiro está hoje mais consciente e mobilizado do que nunca para integrar critérios ambientais nas suas decisões de investimento, embora com graus de maturidade diferentes nos diferentes contextos nacionais e institucionais. Essa integração é incentivada por várias forças importantes.

Primeiro, a transição energética traz tremendas oportunidades (e alguns riscos) para as empresas, desde o desenvolvimento e adoção de novas tecnologias, a novos mercados abertos pela alteração de preferência dos consumidores, etc. Estas oportunidades envolvem investimento e financiamento. 

Adicionalmente, as alterações climáticas expõem as empresas a novas formas de risco, nomeadamente riscos físicos – fogos, inundações, seca, etc. – diretamente ou através da sua cadeia de valor.

Estes riscos e oportunidades das empresas têm então de ser devidamente incorporados nas decisões de financiamento dos bancos – não numa abordagem paralela à tradicional, mas numa abordagem mais alargada, onde estes fatores são integrados em análises de negócio já existentes.

Finalmente, o setor financeiro necessita de incorporar estes critérios ambientais na sua análise também por requerimento legal, tanto por parte da autoridade monetária (como os bancos centrais, que vêm estes temas como fontes de risco financeiro adicional) como do contexto legislativo (por exemplo, mercados de créditos de carbono, um dos instrumentos da política económica energética).

Na prática esta integração tem-se feito de diversas formas: primeiro, no desenvolvimento de produtos específicos de apoio à transição, por exemplo, as obrigações verdes ou fundos de capital de risco focados em tecnologias de transição. Segundo, pela inclusão de critérios ambientais (e outros) na apreciação da robustez das empresas, nomeadamente aquando da concessão de crédito. Esta integração, com algumas exceções, tem sido lenta e penosa, nomeadamente pela dificuldade em ter dados fidedignos e comparáveis ou em integrá-los de forma objetiva em modelos de avaliação na empresa. Mas o caminho está a ser feito e é irreversível. Empresas que não o compreendam vão ficar para trás.

Em Portugal, o setor financeiro está a acompanhar esta evolução, com os principais bancos e instituições a integrar políticas ESG nas suas estratégias e a desenvolver linhas de crédito verde, fundos de investimento sustentável e obrigações ligadas à transição climática. Contudo, o mercado português ainda enfrenta desafios de escala, sobretudo ao nível da formação interna, da disponibilidade de dados ESG e da sensibilização das PMEs, que representam a maior parte do tecido empresarial português.

Já a nível europeu, o enquadramento regulatório tem sido um motivo adicional para esta transformação, como referimos acima. Iniciativas como a Taxonomia da União Europeia, o Regulamento de Divulgação de Finanças Sustentáveis (SFDR), a Diretiva de Relato de Sustentabilidade (CSRD) e o Relatório Voluntário de Sustentabilidade para as PMEs (VSME) obrigam bancos, gestoras e investidores a considerar riscos e oportunidades ambientais nas suas decisões e a reportar o seu impacto de forma transparente. Este conjunto de normas – ainda a serem consolidadas – aponta a Europa como uma referência global em finanças sustentáveis.

No contexto internacional, observa-se uma adoção crescente, mas assimétrica. Enquanto regiões como a Europa, Japão, Austrália, Canadá e o Reino Unido lideram com regulamentação e métricas claras, os Estados Unidos e várias economias emergentes avançam de forma mais fragmentada, impulsionadas sobretudo por preocupações de desenvolvimento mais locais ou por pressões de mercado de curto prazo. 

Diria que o setor financeiro está a dar passos firmes rumo à integração dos critérios ambientais, mas a verdadeira transformação exigirá tempo, harmonização regulatória e capacitação técnica, para que informação mais objetiva possa canalizar o capital para uma economia mais verde e resiliente.”

3. Que impacto têm tido as políticas europeias, como o Pacto Ecológico Europeu e a Taxonomia da UE, no desenvolvimento das Finanças Verdes em Portugal?

“O Pacto Ecológico Europeu definiu uma visão estratégica para transformar a economia europeia, colocando a sustentabilidade no centro das decisões económicas e financeiras. Este enquadramento impulsionou os Estados-Membro, incluindo Portugal, a orientar a sua legislação e os seus planos de investimento público e privado para metas de descarbonização, transição energética e proteção da biodiversidade. O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) português é um exemplo claro dessa influência: cerca de 40% do seu financiamento é dedicado a objetivos climáticos, refletindo a prioridade dada à transição verde.

A Taxonomia Europeia, por sua vez, pode desempenhar um papel decisivo ao definir critérios técnicos claros sobre o que pode ser considerado como uma atividade alinhada com o desenvolvimento sustentável. Esta ferramenta traz maior transparência, comparabilidade e credibilidade a esta classificação - mas com custos elevados de implementação. Estes custos prejudicam a abrangência da sua aplicação, sobretudo para as PMEs, e estão na base da corrente revisão legislativa europeia nesta área.

No contexto português em particular, o Pacto Ecológico Europeu tem permitido uma mobilização relevante de capital para a transição verde, através da criação de linhas de bonificação e financiamento verde pela maior parte das instituições financeiras. Mas a falta de uma taxonomia “prática” de classificação das atividades alinhadas com a transição, dificulta a convicção com que as empresas e os bancos conseguem apoiar a transição. Isto é particularmente verdade para as PMEs, que enfrentam grandes dificuldades em traduzir os critérios técnicos da Taxonomia em práticas operacionais concretas. Neste contexto de evolução legislativa, os bancos têm desenvolvido taxonomias próprias para prosseguirem a sua estratégia de apoio à transição.”

4. Considera que existe um excesso ou uma falta de regulamentação no setor? Onde é que ainda há lacunas?

“A nossa sociedade vive tempos de transformação significativa e nas economias de mercado, como a nossa, o contexto regulatório é fundamental para incentivar as mudanças económicas necessárias. A transição para uma economia mais sustentável necessita por isso de um contexto regulatório de apoio e suporte. Mais do que “excesso” ou “falta” de regulamentação, o que se observa é um processo necessário de ajustamento e maturação na área da sustentabilidade. As instituições estão a adaptar-se a um novo enquadramento normativo europeu que, embora ambicioso e necessário, é também complexo e ainda em consolidação.

Na União Europeia, o esforço regulatório tem sido extenso e agressivo, em linha com a política económica de independência energética. Tem-se procurado criar transparência e comparabilidade entre empresas e produtos financeiros. No entanto, a sua demasiada complexidade, ambiguidade e rápida implementação tem gerado desafios práticos, especialmente para as PMEs e instituições financeiras de menor dimensão, que enfrentam custos elevados de conformidade e dificuldades em aceder a dados fiáveis.

Em Portugal, a regulação é, de forma geral, bem recebida e vista como um motor de transformação, mas a sua aplicação ainda é assimétrica. Os grandes bancos e cotadas estão mais avançados, enquanto as PMEs ainda estão a dar os primeiros passos na integração de critérios ESG e na compreensão dos requisitos regulatórios. Persistem lacunas na literacia técnica, no acesso a formação especializada e na harmonização de metodologias de reporte — áreas onde centros de conhecimento e parcerias público-privadas podem ter um papel determinante (por exemplo o Center for Sustainable Finance da CATÓLICA-LISBON).

A nível internacional, há um desalinhamento infeliz entre jurisdições. Enquanto a Europa lidera com um quadro robusto e obrigatório, outros mercados — como os Estados Unidos ou algumas economias emergentes — seguem uma abordagem mais voluntária e fragmentada ou mesmo de oposição. Esta falta de harmonização global dificulta a resolução de um problema grave que é global.

Diria que, mais do que um problema de excesso ou falta, o principal desafio reside na clareza, consistência e aplicabilidade prática da regulamentação. O foco nos próximos anos deve ser convergir, simplificar e capacitar, de modo a garantir que a regulação se traduz efetivamente em impacto positivo e não apenas em conformidade administrativa.”

5. Como avalia a resposta das instituições financeiras portuguesas às exigências da nova legislação verde europeia?

“De forma geral, a resposta das instituições financeiras portuguesas à nova legislação verde europeia tem sido positiva e progressiva, embora ainda marcada por assimetrias entre os grandes grupos bancários e as instituições de menor dimensão.

Os principais bancos portugueses — como a Caixa Geral de Depósitos, o BPI, o Millennium BCP, o Santander Portugal ou o Novo Banco — têm dado passos consistentes na integração dos critérios ESG nas suas políticas de risco, concessão de crédito e reporte. Muitos já publicam relatórios de sustentabilidade alinhados com a CSRD/SFDR e começaram a avaliar os seus portfólios ainda que com taxonomias próprias, mas convergentes com a Taxonomia Europeia. Nos últimos anos têm também desenvolvido produtos financeiros verdes, como green bonds, sustainability-linked loans e linhas de crédito específicas para transição energética e eficiência de recursos.

Contudo, este avanço é ainda pouco visível entre instituições mais pequenas e cooperativas de crédito, que enfrentam limitações de recursos humanos e técnicos para dar resposta às exigências regulamentares. A lacuna de dados ambientais e sociais fiáveis, especialmente entre as PMEs servidas por essas instituições, continua a ser um obstáculo estrutural.

Em Portugal, nota-se também uma evolução na governança interna das instituições: há mais departamentos ESG, mais formação técnica e uma maior articulação com reguladores e universidades, o que demonstra um esforço genuíno de capacitação. O Banco de Portugal e a CMVM têm desempenhado um papel importante neste processo, através da promoção de literacia financeira sustentável, da criação de guias de boas práticas e da integração dos riscos climáticos na supervisão prudencial.

Assim, acredito que as instituições financeiras portuguesas estão a responder de forma responsável e construtiva, mas o processo de adaptação ainda não está concluído. O desafio agora é passar da conformidade à transformação estratégica — integrando verdadeiramente os critérios ESG no centro da decisão financeira e fomentando uma cultura de sustentabilidade transversal a todo o setor.”

6. Até que ponto os investidores estão verdadeiramente empenhados em investir de forma sustentável, ou trata-se apenas de uma tendência de mercado?

“A maior parte dos investidores continua atento ao que sempre foi relevante para os seus investimentos: o seu perfile de risco e de retorno. Apenas uma pequena minoria está disponível a abdicar de parte do retorno financeiro em prol de um retorno ambiental ou social dos seus investimentos.

Penso que isso não ira mudar muito no curto ou médio prazo. Portanto o ponto mais relevante, na minha opinião, é perceber se ao ter em consideração questões de sustentabilidade um investidor pode melhorar o perfile de risco e retorno dos seus portfólios. E aí a resposta é crescentemente sim, já que estes temas são cada vez mais materialmente relevantes para as empresas e por isso para os investidores. Exemplos não faltam: riscos físicos crescentes (basta por exemplo olhar para a indústria seguradora), novas tecnologias energéticas com preços competitivos, mudanças de preferências dos consumidores, riscos reputacionais ou mudanças regulatórias.

Todos estes exemplos mostram que é cada vez mais relevante, primeiro, ter em consideração fatores de sustentabilidade nos investimentos e, segundo, alinhar de forma crescente e estratégica estes investimentos com a sustentabilidade. Não quer isto dizer que investir em soluções sustentáveis é sempre a melhor opção para quem procura o melhor perfile de risco e retorno. Mas não ter em conta estas considerações é cada vez mais arriscado. Portanto, a tendência de investir de forma mais sustentável poderá ter alguma variação, mas, no longo prazo, deverá ser cada vez mais forte.”

7. O sistema financeiro português está a fazer o processo de transição para a mudança dos modelos de financiamento sustentável?

8. Acha que a banca portuguesa está ainda um passo atrás no financiamento sustentável?

“Para as questões 7 e 8 ver resposta às questões 2 e 5. Posso acrescentar: diria que embora não estando a liderar neste tipo de financiamento, o sistema financeiro português é um atento e rápido seguidor das inovações nesta área, não só por fazer parte de um sistema europeu mais lato, mas por cooperar de forma significativa com instituições supranacionais que estão a inovar nestas áreas, como o Banco Central Europeu ou o Banco Europeu de Investimentos.”

9. Quais são os maiores desafios que uma empresa enfrenta ao tentar alinhar-se com princípios de sustentabilidade financeira?

“O maior desafio para as empresas é perceber o impacto estratégico que a transição para um mundo mais sustentável terá para o seu negócio, sobretudo no curto e médio prazo. Para muitas o impacto parece ser sobretudo negativo, aparecendo na forma de preços energéticos mais altos ou mudanças e relatórios extensos forçados pela legislação e não pelo mercado. Esta perspetiva é importante, porque real, mas claramente insuficiente.

O impacto que a sustentabilidade tem na nossa economia é irreversível e cada vez mais relevante. É imperativo por isso que as empresas, primeiro, percebam como esta temática vai mudar o seu negócio, para que depois se possam posicionar estrategicamente da melhor forma para esse futuro. Este posicionamento é difícil e pode ser bastante diferente para cada empresa, mesmo no mesmo setor. É difícil porque a transformação tecnológica, económica e legislativa nesta área tem sido tremenda – dificultando a medição do seu impacto no negócio da empresa. 

Portanto, e em primeiro lugar, há um desafio de integração estratégica. Há a necessidade de mudar não apenas processos, mas também mentalidades e modelos de negócio. Esta transição implica incorporar variáveis ambientais, sociais e de governação (ESG) na tomada de decisão económica — algo que, embora traga benefícios a longo prazo, exige investimento, capacitação e acesso a dados fiáveis no curto prazo. É um desafio profundo também de gestão de mudança interna — a necessidade de envolver colaboradores e gestores de topo na adoção de práticas sustentáveis e no reporte não financeiro. A sustentabilidade deixa de ser apenas uma área de “responsabilidade social” para se tornar parte da governança e performance económica, transversal a todas as áreas e departamentos da empresa.

Em segundo lugar, destaca-se a complexidade regulatória e de reporte nesta área. As novas normas europeias estão ainda em evolução, mas introduzem requisitos de transparência exigentes, obrigando as empresas a recolher, validar e divulgar informação detalhada sobre o impacto ambiental e social da sua atividade e cadeia de valor. Para muitas PMEs, este processo é difícil por falta não só de recursos técnicos e financeiros, mas também de dados fidedignos da sua ação nesta área.

Terceiro, o acesso a financiamento verde continua limitado. Apesar do crescimento de produtos sustentáveis muitas empresas ainda não têm dimensão ou histórico ESG suficiente para cumprir os critérios exigidos pelos programas de apoio, bancos e investidores institucionais.

No fundo, o verdadeiro desafio é equilibrar ambição, necessidade e capacidade - transformar princípios em práticas tangíveis, com racionalidade de negócio e financeiramente sustentáveis.”

10. Como é que o setor empresarial pode equilibrar rentabilidade com responsabilidade ambiental?

“Como referido anteriormente, a transição – nomeadamente com a sua forte componente ambiental – é materialmente relevante, irreversível e urgente. Faz por isso parte do contexto em que as empresas têm de operar. É visível nos novos modelos de negócio, nos novos riscos de negócio (por exemplo inundações, falta de água ou fogos florestais), na mudança de atitude dos consumidores, na reputação das empresas e na regulação a que as empresas estão sujeitas, diretamente ou através da sua cadeia de valor. 

Especificamente, o conceito de dupla materialidade da legislação europeia, aponta para a necessidade de a empresa perceber como a transição para uma economia mais sustentável afeta o seu negócio, bem como, no sentido inverso, as atividades da sua empresa afetam o ambiente e as comunidades em que se inserem. 

Por isso ter responsabilidade ambiental é um imperativo estratégico – comercial, financeiro, reputacional e legal - crescente em qualquer empresa. Este imperativo pode, no entanto, manifestar-se de forma diferente em cada empresa. Mas empresas que se posicionem bem nesta área terão vantagens competitivas crescentes. 

Há muitos exemplos que podem ser dados nesta área, de muitas geografias e setores, como a Tesla ou mais próximo o Esporão, a Triangle´s, a EDP ou a Sonae – que mostram que é possível conciliar margens financeiras com metas ambientais, desde que a sustentabilidade esteja integrada na estratégia e não apenas tratada como um tema de compliance.

Claro que muitas PMEs enfrentam desafios adicionais — nomeadamente falta de dados, recursos técnicos e financeiros para adaptar processos e medir impactos. Nesse sentido, pode parecer que o foco na sustentabilidade é um luxo que choca com as suas operações no dia-a-dia e que compromete a sua rentabilidade. Mas cada vez mais as PMEs estão a ser envolvidas nestes temas por diversas pressões, nomeadamente da sua cadeia de valor ou pelo sistema bancário. Por isso, é necessário parar e pensar estrategicamente. É necessário compreender que integrar critérios de sustentabilidade pode ser inconveniente no curto prazo, mas potencia a criação de valor económico, a redução de riscos, e maior  resiliência dos seus resultados no médio e longo prazo. 

É precisamente neste ponto que o apoio de entidades como o IAPMEI, o Banco Português de Fomento e o Center for Sustainable Finance da CATÓLICA-LISBON, se torna determinante: fornecer conhecimento, instrumentos e orientação para que a sustentabilidade se traduza em vantagem competitiva real. A sustentabilidade, quando bem integrada e gerida, não reduz rentabilidade — potencia-a no tempo.”

11. O que distingue, na prática, um produto financeiro verde de um produto tradicional?

“Na prática, o que distingue um produto financeiro verde de um produto financeiro tradicional é a finalidade do capital alocado com esse investimento: enquanto um produto tradicional visa financiar uma qualquer atividade ou projeto económico, tendo em conta o seu rendimento financeiro, um produto verde tem o objetivo explícito de financiar atividades económicas que contribuam para objetivos ambientais específicos, como a redução de emissões, a transição energética, a economia circular ou a preservação da biodiversidade. O seu rendimento financeiro pode variar também de acordo com os objetivos ambientais alcançados. A diferença está, portanto, no destino, impacto e potencial rendimento do investimento.

Por exemplo, um empréstimo, obrigação ou fundo verde é estruturado de forma a garantir que o capital mobilizado financia projetos sustentáveis, de acordo com critérios técnicos específicos — normalmente definidos pela entidade que empresta (e em linha com taxonomias definidas pelos órgãos legislativos ou internacionais).

Por exemplo, na Comunidade Europeia, a SFDR permite distinguir produtos financeiros “verdes” – fundos de investimento sob os artigos 8º ou 9º - de outros mais tradicionais. Esta classificação permite aos investidores canalizar os seus investimentos para produtos verdes (se assim o entenderem e de acordo com o perfil de investimento de sustentabilidade que definiram junto ao seu banco) e permite também ao legislador e decisores políticos perceberem quanto capital está a ser afeto a essas atividades.

Finalmente, é de notar que o retorno financeiro de um investimento verde pode estar associado ao cumprimento de determinadas métricas de sustentabilidade. Os investidores nestes títulos “bonificam” assim o seu emissor quando o projeto ou empresa atinge objetivos pré-estabelecidos. Há múltiplos casos deste tipo de incentivos, mas os mais usuais são ligados a objetivos ambientais, como a diminuição da pegada carbónica, do consumo de água ou o aumento da área florestal plantada, por exemplo.”

12. Os green bonds e outros instrumentos sustentáveis têm tido procura suficiente em Portugal? Que obstáculos existem à sua expansão?

“O mercado de green bonds, tanto em Portugal como no resto do mundo, estão aquém do que é necessário. As emissões, embora crescentes, têm sido menores do que as necessidades de investimento. Na minha opinião há dois obstáculos principais à sua expansão. Primeiro, uma dificuldade em normalizar com confiança e sem ambiguidade o que se pode designar de “verde”. Sem isso, tanto os emissores como os investidores destes instrumentos terão menos confiança na legitimidade do instrumento – e a incerteza não ajuda o mercado, mesmo que as intenções sejam as melhores.

Segundo, penso que precisamos de uma política económica de incentivos mais agressiva para este tipo de financiamento. A transição é um imperativo definido pela Comissão Europeia como “existencial” e por isso todo o sistema económico de incentivos – que já existe noutras áreas – deveria ser recalibrado tendo em vista este imperativo. Numa economia de mercado saudável o capital é alocado segundo o seu rendimento e esse rendimento pode ser alterado, com toda a legitimidade que o poder político tem, com incentivos de política económica. Esta é uma das áreas onde penso que poderíamos trabalhar mais para incentivar o mercado de produtos financeiros ‘verdes’.”

13. Existe risco de greenwashing no setor financeiro? Como é que os investidores e reguladores podem proteger-se disso?

“O risco de caracterizar mal um produto existe em todas as áreas de atividade, como é o caso do setor financeiro. Este risco é maior em áreas onde a caracterização do produto é difícil ou onde a legislação é ambígua. Infelizmente, estas duas condições são verdadeiras na área das finanças da sustentabilidade, por isso o risco de greenwashing (ou o oposto, greenhushing, onde uma empresa minimiza o seu impacto ambiental, por exemplo, para evitar greenwhashing) é possível. 

Por exemplo, no início desta década vimos todo o mercado voluntário de carbono sofrer um impacto negativo significativo devido à caracterização errada dos projetos que o sustentavam. Havia créditos a serem vendidos várias vezes, projetos com créditos onde a pegada carbónica total era positiva, etc. Penso que nos últimos anos o mercado amadureceu significativamente nesta área e que a grande maioria dos seus participantes estão mais informados e exigentes em relação aos diferentes projetos à procura de financiamento verde, em todas as suas dimensões. Mas o caminho está longe do fim: os reguladores têm de criar definições mais claras de sustentabilidade enquanto os investidores terão de se capacitar nesta área, para poderem tomar decisões financeiras sobre sustentabilidade como hoje tomam sobre o retorno ou risco financeiro dos seus investimentos.”

14. Em que áreas acredita que as Finanças Verdes terão maior impacto nos próximos cinco a dez anos?

“Penso que as áreas de maior impacto estão bem definidas, embora possamos ter uma divergência significativa entre regiões, dado estarem a seguir políticas muito diferentes. Por exemplo, em termos energéticos é espectável que os EUA reduzam significativamente o seu investimento nas energias renováveis, apostando nas fontes energéticas fosseis onde têm recursos significativos. Este posicionamento vai deixar para os outros blocos – nomeadamente a China e a Europa – a liderança em energias alternativas. Especificamente, para estes dois blocos, vamos ver um continuado investimento nesta área, embora com nuances diferentes: à medida que algumas tecnologias de energia renovável estão a maturar (como o solar e a eólica), há outras que precisam de apoio significativo para vingarem, como o armazenamento energético, o nuclear e o hidrogénio.

A Europa, que não tem combustíveis fosseis, vai ter de decidir a sua política nesta área: continuar dependente dos combustíveis fosseis (e desacelerar a transição energética) ou dar um salto tecnológico, que poderá ter custos relevantes em termos económicos, nomeadamente com a utilização de energia mais limpas, mas mais caras no curto prazo. É uma decisão difícil, sobretudo no atual clima geo-político.

Fora da área energética, vai continuar o trabalho de “eletrificar tudo”, por exemplo com a extensão significativa aos transportes terrestres e à resiliência e expansão das redes elétricas. Este caminho está a ser agressivamente seguido pela China, por exemplo, onde a eletrificação da economia é já das mais altas do mundo, mas onde esta tendência continua a crescer a um ritmo acelerado. Esta transformação não é inocente, pois potência sem paralelo a liderança tecnológica da China neste espaço. Isso já é mais patente nalgumas áreas, como os carros elétricos e as baterias.

Outras áreas onde, na minha opinião, veremos bastante investimento é nas áreas onde a descarbonização é mais urgente, como na construção, nos processos industriais em geral, como a metalurgia ou a química ou nos sistemas de refrigeração e aquecimentos de edifícios. 

Embora a tendência geral seja positiva e de aceleração grande do investimento em energias verdes (duplicando cada dois anos), assistimos a alguma desaceleração de investimentos no último ano em tecnologias mais emergentes (por exemplo hidrogénio e nos processos industriais). Esta desaceleração – muito fruto do contexto internacional de grande incerteza – a continuar, é preocupante pois compromete o ritmo de transição na próxima década.”

15. Que papel terão as tecnologias emergentes, como a inteligência artificial ou a blockchain, no futuro das Finanças Verdes?

“As tecnologias emergentes referidas têm o potencial de transformar significativamente a nossa sociedade e a nossa economia. Por isso, terão também impacto nas finanças e na transição. Há muitas áreas de potencial impacto na sustentabilidade, na medida em que estas tecnologias poderão contribuir para um significativo aumento da eficiência de processos e na alocação de recursos, resultando em soluções mais sustentáveis. Mas diretamente na área das finanças verdes há dois exemplos que penso serem interessantes. Um é na área de medição, verificação e monitorização de dados – essencial a um sistema objetivo e eficiente de gestão da sustentabilidade. Avanços tecnológicos de hardware e de software (nomeadamente inteligência artificial), permitem-nos medir com muita maior precisão e frequência pegadas carbónicas, alteração de uso dos solos ou a riqueza da biosfera. Por exemplo, em Portugal, é possível medir a pegada de cada concelho, através do programa MEM+ do Instituto Superior Técnico. Este tipo de análises pode - ou não – usar explicitamente modelos de inteligência artificial para aproximar dados onde as medições possam ser menos fidedignas. Outro exemplo é a previsão meteorológica de curto prazo. Com as mudanças climáticas a implicarem fenómenos atmosféricos mais extremos e provavelmente mais frequentes, estes avanços nas previsões ganham um significado humano, social e económico bastante relevante. Um modelo melhor de previsão destes fenómenos atmosféricos – mais fidedigno e/ou com previsões mais adiantadas – permite minorar de forma significativa os prejuízos desses mesmos fenómenos, não só por permitirem perceber melhor as áreas de exposição aos diferentes fenómenos como por anteciparem melhor a ocorrência desses mesmo fenómenos. Parte destes modelos não recorrem  a inteligência artificial, mas têm sido aumentados ou desenvolvidos mais rapidamente com a utilização de inteligência artificial. Exemplos da utilidade destes modelos são abundantes: a proteção civil pode antecipar emergências e necessidades mais facilmente, empresas seguradoras podem calibrar os seus prémios de seguro com informação mais detalhada e precisa, empresas de construção de infraestruturas ou mesmo imobiliárias, usam este tipo de análise para informar da decisão de avançar com projetos em determinadas áreas. 

A blockchain começa a ser usada também para facilitar processos mais burocráticos ou onde é muito relevante estabelecer processos de transação seguros e verificáveis, como nas cadeias de valor. Exemplos, ainda nascentes, na área da sustentabilidade são a tentativa de tokenização que existe nalguns mercados de carbono, passaportes dos produtos e suas matérias-primas (por exemplo para promover economias circulares e o fair-trade) ou instrumentos de investimento ligados à floresta.

Estes são alguns dos muitos exemplos onde o avanço científico em geral, mas da tecnologia de inteligência artificial e blockchain em particular, poderão significativamente contribuir para um mundo mAis sustentável.”

16. Que conselhos daria a jovens profissionais que queiram seguir carreira neste campo?

“Para se ter sucesso em qualquer carreira, penso que se tem de juntar duas condições: capacidade técnica e entusiasmo (a capacidade de trabalho é um dado). Por isso o meu conselho inicial seria o de procurar o maior conhecimento técnico na área em ser quer trabalhar, seja mais nas áreas de investigação, industriais, agrícolas, legais, contabilística, financeira, operacional, comercial, etc. Segundo, ter uma paixão grande pelo tema. Sucesso implica muito trabalho e, especialmente nesta área, resiliência, já que o tema não é consensualmente e continuamente aceite com a urgência e magnitude que certamente tem. Por isso é necessário um entusiasmo grande pelo tema!

Dito isto, vejo a área da sustentabilidade como uma área com muito potencial de crescimento e realização pessoal e profissional. Para além de ser uma área “existencial” para a humanidade, é uma área onde o trabalho é urgente. E quanto mais tarde a nossa sociedade acordar para esta realidade, mais urgente se torna. Precisamos de gente bem capacitada, resiliente e motivada para este desafio sem igual. Junta-te ao grupo!”

Center for Sustainable Finance

The Center for Sustainable Finance (CSF) mission is: advancing the role of Finance in building a Sustainable World.

We believe that Finance has been a powerful lever in the development and prosperity of our societies, by empowering better decisions when allocating resources and capital. This role is critical as we face several (inter)generational challenges, from Climate Change to the sustainability of Retirement Systems.

The Center has the main goal to provide world-class expertise in Sustainable Finance by:

1) Contributing to rigorous academic study and knowledge building in the area of Sustainable Finance.

2) Participating in the acceleration of solutions to the challenges identified, with a particular focus on the Portuguese context.

3) Fostering the learning and advancement of capabilities in the focus themes, across all economic agents.

The Center's inaugural focus will be on Climate Change and the Transition to a low-carbon economy, where finance plays a key role in fueling innovation and channeling capital toward an economic system that is less dependent on carbon emissions. We believe that a well-managed transition empowers opportunities and allows for a more efficient and fairer transition.

Center for Sustainable Finance,

Developing Pathways for a Prosperous Future

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