Liberalismo, Ecologia e o Gradiente sem nome
As mudanças climáticas estão em curso. As consequências económicas e sociais são claras, sobretudo para os mais vulneráveis.
By António Baldaque Da Silva for Observador
12 jun. 2026, 00:03
O liberalismo e as economias de mercado têm provado ser uma combinação poderosa na promoção do engenho humano e desenvolvimento económico e social. A famosa mão invisível de Adam Smith e a afirmação de Friedman de que responsabilidade social das empresas deve ser maximizar o lucro são traves-mestras desse desenvolvimento. Estas premissas garantem uma alocação de recursos, nomeadamente capital, da forma mais eficiente possível do ponto de vista produtivo. E de facto, mais do que dois séculos passados desde o início desta experiência, a humanidade tem ao seu dispor uma abundância material sem precedentes.
Neste sentido, este laissez faire na economia, tem paralelos interessantes nas ciências naturais. Numa economia eficiente, uma boa oportunidade de negócio chama prontamente capital. Da mesma forma, qualquer ativo financeiro com um preço abaixo do seu valor intrínseco é prontamente comprado, com o capital a acorrer para fechar esse desequilíbrio momentâneo. Este permanente fluxo de capital garante um sistema em “equilíbrio”, onde o equilíbrio, mais uma vez, é definido como um uso eficiente de recursos produtivos. Nas ciências naturais, o princípio do gradiente explora este mesmo fenómeno de equilíbrio, nomeadamente através da segunda lei da termodinâmica: a energia flui espontaneamente ao longo de um gradiente de um corpo quente para um corpo frio, até igualar a diferença de temperaturas…e reestabelecerum equilíbrio. O mesmo acontece, por exemplo, com fluxos de água (por exemplo, rios), que aceleram onde o desnível é mais acentuado, aproveitando o maior gradiente. O capital faz o mesmo – flui rapidamente para a melhor oportunidade de lucro.
O paralelo entre as leis naturais e económicas deve parar aqui. Uma é uma ciência exata, outra social. Uma trata de relações físicas, outra de pessoas. A mão invisível deve trabalhar com o propósito definido pelas pessoas e para as pessoas, e não por gradientes sem nome. E os economistas – mesmo os mais liberais como Friedman – há muito que reconhecem isso, nomeadamente pelo uso do termo “externalidade”. A boa regulação de externalidades é parte absolutamente essencial e intrínseca de qualquer economia de mercado.
As alterações climáticas e o esgotamento voraz dos nossos recursos naturais e biodiversidade são, desde há muito, exemplos claros de externalidades. Temos estado desatentos porque esse consumo parecia relativamente “inofensivo”, com externalidades suportáveis. Já não o é. Não vale a pena tentar disfarçar. As mudanças climáticas estão em curso. As consequências económicas e sociais são claras, sobretudo para os mais vulneráveis. A biodiversidade e os nossos sistemas naturais estão em crise – e com ela uma parte significativa das economias e populações mundiais. Temos de parar de fingir que não vemos!
Sendo eu próprio liberal, vejo com pena outros apresentarem argumentos que considero fracos. Argumentos como o de que as alterações climáticas são cíclicas, não são criadas pela ação do homem, que são irrelevantes ou uma fabricação de esquerda; ou o de que são apenas argumentos para mais impostos e intervencionismo e que o engenho humano acabará por resolver mais este problema; ou que não podemos resolvê-lo porque perderíamos competitividade e que a conversa foi “gira” mas agora é preciso pragmatismo e “adultos na sala” – argumento que acho bastante reacionário; ou o mais demagógico, que apela à vitimização de cancelamento ou falta de pluralismo na discussão.
Todos estes argumentos são anti-liberais, porque levarão ao esgotamento deste modelo económico, em vez de apoiar a sua evolução, com todas as ferramentas disponíveis, incluindo a regulação de externalidades e políticas públicas relevantes.
Vamos ser claros: a posição dominante e mais representada nas opções políticas e económicas dos grandes blocos mundiais são as da mão invisível, a do gradiente sem nome. Um gradiente que, em nome de nada, mas de forma imparável nos está a levar a um caminho sem retorno neste nosso irrepetível planeta Terra, a nossa “Casa comum” que necessita desesperadamente de cuidado e atenção.
É verdade que as políticas governamentais na Europa, por exemplo, têm sido extremamente burocráticas e até contraproducentes. É verdade que a falta de cooperação global torna a resolução do problema bastante mais difícil. Mas felizmente muitos, incluindo muitos liberais, estão empenhados em encontrar e implementar soluções. A transição energética está em curso porque é uma boa decisão económica. As discussões sobre as necessidades de adaptação às mudanças climáticas são emergentes, mas absolutamente necessárias para uma boa gestão dos riscos sociais, económicos e naturais. As soluções de mercado e regulação de externalidades estão bastante atrasadas, mas a ser desenvolvidas e devidamente apoiadas. Há esforço em dar nome ao gradiente – desenvolvimento humano!
É preciso, por isso, arregaçar as mangas e construir afincadamente os mecanismos para um desenvolvimento mais sustentável – é isso a que nos propomos na Lisbon Sustainability Week, a decorrer entre os dias 30 de junho e 2 de julho. Quer juntar-se à discussão? Vamos Construir Sustentabilidade Juntos.