Robert Engle, Nobel da Economia: “Não vejo outra crise financeira a formar-se”

Não há bolha na inteligência artificial nem uma nova crise à vista, mas é "altura de ter cuidado". O diagnóstico é do Nobel da Economia de 2003, que aponta o crédito privado como o elo mais fraco e vê em Musk “um risco sistémico”

16 Julho 2026

Gonçalo Almeida, Sónia M. Lourenço, Tiago Miranda

Expresso

Com os mercados acionistas a bater sucessivos máximos, apesar da guerra no Médio Oriente, Robert Engle, galardoado com o Prémio Nobel da Economia de 2003, afasta o cenário de uma nova crise financeira no horizonte. Em entrevista ao Expresso, a propósito da sua participação na Lisbon Sustaintability Week, organizada pela Católica Lisbon SBE, diz que “não há uma bolha” no sector da tecnologia e da inteligência artificial (IA), mas avisa que “isso não significa que não vá haver uma correção”.

Como olha para a situação atual dos mercados financeiros? Vê uma nova crise financeira a formar-se?

Na verdade não vejo outra crise a formar-se. Os mercados financeiros estão espantosamente calmos. Uma guerra total parece bastante improvável. E guerra significa que o Governo gasta muito dinheiro em armamento. Isso até é bom para a economia e para algumas empresas. Nos EUA, o presidente está muito preocupado em manter o mercado acionista forte. Quando este começa a cair, faz alguma coisa para o evitar. Os mercados não estão muito preocupados.

É perigoso para as famílias, para a economia real, depender tanto dos mercados financeiros?

O mercado acionista está fortemente concentrado num pequeno número de empresas. Isto torna arriscadas até as carteiras bem diversificadas. Há um risco nesse sentido. Se as empresas de chips e de IA caírem, vão arrastar o mercado. Muitas pessoas perguntam-se se há uma bolha em curso nos sectores da IA e da tecnologia.

E o que pensa? Há uma bolha?

Penso que não há uma bolha, e a razão é que a IA é muito útil. As empresas estão a ganhar muito dinheiro a vender IA. É muito diferente da crise financeira e da bolha da internet na viragem do século. Nessa altura havia muitas empresas com avaliações elevadas e sem qualquer negócio. Não é isso que estamos a ver agora, estas empresas têm um bom negócio. Isto não significa que não vá haver uma correção, mas não vai ser um colapso.

Há um conflito no Médio Oriente, mas os mercados têm estado calmos e os índices acionistas atingiram novos máximos. Porquê?

Porque não anteveem um colapso, e tenho duas explicações simples para isso. Uma é o TACO — Trump always chickens out [Trump acobarda-se sempre] —, de que todos já ouvimos falar. E a outra batizei-a de MOO — The Market is Overly Optimistic [o mercado é excessivamente otimista]. São explicações para o mercado acionista estar mais alto do que talvez devesse. Mas não creio que a consequência seja um colapso do mercado. Não é como na crise financeira, em que a gestão do risco falhou e os bancos estavam sobre-expostos. Os balanços dos bancos parecem bastante saudáveis neste momento. Penso que a parte mais frágil dos mercados financeiros está no private equity [fundos de capital privado] e no crédito privado.

É o ponto cego do sistema?

É um ponto fraco, mas não é assim tão vulnerável, porque no private equity e no crédito privado os investidores não podem levantar o seu dinheiro quando querem. Portanto, não pode haver o tipo de colapso que tivemos na crise financeira. Se as empresas de private equity falirem, muitas pessoas ricas, fundos de pensões e fundos patrimoniais vão perder dinheiro. Mas não as pessoas comuns. E não é provável que contamine todo o sistema financeiro. Há riscos, mas não riscos sistémicos.

“Confiar em Elon Musk pode ser um risco sistémico”

As tecnológicas representam uma grande fatia do mercado acionista e têm puxado os índices para cima. Vê os preços a subir ainda mais?

Não gosto de fazer previsões. Mas é altura de ter cuidado. Há razões para isso. Se tivermos inflação e os bancos centrais subirem as taxas de juro, isso trava as economias. A economia norte-americana aguenta-o talvez melhor do que a europeia. Os bancos que tiveram dificuldades no último surto inflacionista foram os que tinham usado Obrigações do Tesouro de longo prazo como principal forma de investimento. Quando as taxas de juro subiram, os preços caíram, e como os depositantes levantaram o seu dinheiro, tiveram de vender, sofrendo perdas de capital. Agora, os bancos parecem saudáveis. Têm mais liquidez e já não investiram tudo em Obrigações do Tesouro. Mas estão a conceder empréstimos à SpaceX. E sabe-se lá como é que isso vai correr.

Os EUA estão a assumir a liderança na IA. A Europa corre o risco de ficar para trás?

Se houver um colapso bolsista na IA, a Europa fica melhor. A minha previsão é que não vai haver, e, por isso, acho que a Europa está atrasada. Mas, não sei até que ponto isso importa, porque a IA pode ser usada em qualquer lado.

Não é importante de onde vêm as empresas de IA?

Não é como construir um carro e vendê-lo noutro país. Está disponível na internet, no mundo inteiro. Será possível que venha a ser restringida e a Europa deixe de ter acesso? Os países do Médio Oriente estão a tentar desenvolver a sua própria IA, porque estão preocupados com isso. A China está a canalizar recursos espantosos para este problema, a tentar construir a sua própria capacidade.

Porque anteveem risco?

Sim. Suponho que a Europa também anteveja, até porque os EUA já não parecem um parceiro tão fiável como costumavam ser. Estou muito descontente com a forma como o ambiente geopolítico está a evoluir. Mas não antevejo que vá fazer colapsar a economia.

Na entrada em Bolsa da SpaceX, vimos as ações a subir em flecha. Qual é a justificação?

Não sei. Elon Musk faz acontecer coisas que não pensávamos serem possíveis. Acho que os investidores estão dispostos a dar-lhe uma oportunidade. Há ali imenso risco, acho que as ações estão sobrevalorizadas. Mas se uma parte do que Musk quer fazer efetivamente acontecer, talvez não estejam.

Confiar em Elon Musk pode ser um risco sistémico?

Pode ser um risco sistémico. Estou incomodado por colocarem a empresa no índice [Nasdaq] tão depressa. Veremos o que acontece.

Os bancos centrais resgataram os mercados na crise financeira de 2008 e na crise da covid-19. Ainda o conseguiriam fazer hoje?

Sim, porque não?

Veio a Lisboa falar sobre sustentabilidade. Os mercados financeiros preocupam-se com o tema?

As alterações climáticas são uma externalidade e os mercados, por natureza, não conseguem resolver uma externalidade. É preciso alguma forma de intervenção governamental. Na Europa, há apoio forte a isto. A China é o maior emissor, mas diz que vai reduzir as emissões a zero até 2060. Se realmente o quiserem fazer, estão preparados. Fizeram um investimento espantoso em tecnologia verde.


PERFIL

Nobel Robert Engle foi galardoado em 2003 (juntamente com Clive Granger) por “métodos para analisar séries económicas temporais com volatilidade variável no tempo”, com grande aplicação nos mercados financeiros.

Nacionalidade Nasceu nos EUA, há 83 anos. Critica Trump: “Estou muito descontente com a forma como o ambiente geopolítico está a evoluir.”

VLab Fundou em 2009 o Volatility Institute, na Universidade de Nova Iorque, que tem por objetivo medir os riscos nos mercados financeiros, sejam sistémicos, climáticos, geopolíticos, pandémicos ou outros. “Temos estado ocupados”, sublinha.


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The Center for Sustainable Finance (CSF) mission is: advancing the role of Finance in building a Sustainable World.

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